sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ainda sobre se nossos filhos ouvem “nãos” suficientes


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Ainda sobre se nossos filhos ouvem “nãos” suficientes
Recebi minha revista “Veja” hoje (02/08/15) e nas páginas amarelas havia uma entrevista com a ex-reitora da Universidade Stanford – Julie Lythcott-Haims, onde ela respondia questões, muito lucidamente a meu ver, sobre o papel de excessivo zelo que os pais vêm exercendo na criação e vida de seus filhos. Papel este que insistem em não deixar, criando uma geração de “adultos-crianças” incapazes de tomarem decisões sobre a própria vida, carreira ou o que quer que seja e logicamente, de pessoas despreparadas para o mundo.

Quando eu era criança a palavra e muitas vezes somente o olhar dos meus pais eram suficientes para acabar com qualquer argumentação que eventualmente eu pudesse pensar em querer ter ante qualquer circunstância. Isto deveria ter feito de mim uma completa idiota, incapaz de saber me defender das injustiças, ter me tornado uma pessoa submissa e idiotizada. Entretanto, até onde me julgo isto não aconteceu.

Mesmo assim, resolvi criar meus filhos de maneira diferente, dando a eles a oportunidade de se manifestarem ante os fatos, para que pudessem exercer sua capacidade de argumentação e assim, terem mais ferramentas para enfrentar o mundo de peito mais aberto e sem receios.

De cara, percebi que havia uma certa confusão entre dar oportunidade de argumentação e desrespeito. Foi preciso percorrer um caminho árduo para deixar bem claro o que era uma coisa e outra.

Para mim também não foi fácil assumir um papel para o qual não tinha modelo e ter que acertar todas as vezes no improviso, baseada apenas no bom senso e na coerência. Sim, porque os filhos guardam tudo o que a gente fala para usarem contra a gente, na primeira oportunidade que tiverem.

Voltando à reportagem da “Veja”, comecei a pensar até que ponto me encaixo neste estereótipo e se sim, como fazer para corrigir a trajetória. Não é disto que se trata a vida?

Primeiramente percebo que sim. Algumas atitudes minhas contribuem para isto, enquanto outras, nem um pouco.

Tenho medo da violência que vejo espalhada por aí, me apavoro e protejo por exemplo ao transportar meus filhos, principalmente minha filha (por ser bem mais nova), para todos os lados. Agora comecei a acordar e orientá-la a usar o transporte público com segurança.

Sempre acompanhei o desempenho escolar de perto, mas não no cangote de ninguém. Nunca estudei com filho, nem fiz tarefa junto. Sempre considerei isto o trabalho deles (não meu). Se tinham dúvidas, eu os fazia chegar às conclusões questionando sobre o assunto, para fazê-los pensar. Com o tempo, as dúvidas foram ficando cada vez menos frequentes. Outra coisa que ensinei é que se a criança resolve todas as dúvidas em casa com os pais, o professor pensa que a matéria foi dada e absorvida adequadamente. Se depois de esgotar todos os recursos possíveis a criança ainda não conseguiu concluir a tarefa a contento, o professor precisa saber que isto está acontecendo e por que. Há também a possibilidade de ensinarmos um determinado assunto de maneira diferente da proposta da escola, e isto pode gerar conflitos para a criança, assim, cada um no seu papel, isto é: eu educo e a escola ensina.

Quanto à carreira escolhida, penso que os ajudei a sanar dúvidas quanto à área do conhecimento que eu os via capazes de atuar. Coisas que eles colocavam em pauta. A decisão final foi deles.

Finalizando, vou parafrasear a revista. Segundo a “Veja”, Bob Dylan escreveu “não há sucesso como o fracasso” e Julie Lythcott-Haims termina dizendo que o fracasso é talvez o melhor professor na vida, e ficamos mais fortes quando somos desafiados.

Ana Margarida Jabali Marques
Cirurgiã-dentista – odontopediatra
FORP – USP – 1982 – Ribeirão Preto – SP